Lua de Sangue - Parte III


O projeto "Um Mês Um Conto" está de volta durante o mês de Março/2022


Lua de Sangue é um conto de fantasia, escrito para o projeto "Um Mês, Um Conto".


A antologia completa poderá ser adquirida posteriormente como livro físico e também em formato de e-book.


Aproveite a leitura!


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Lua de Sangue - Parte III


A força e a energia que eu sentia depois de tudo aquilo era inigualável. Nunca havia experienciado nada igual. Eu olhava para as minhas mãos e faíscas de energia azuladas, saíam delas. O calor ainda percorria todo meu corpo. Levantei a cabeça maravilhada com aquele momento.

Porém, parecia que apenas eu estava empolgada com o que aconteceu. As quatro mulheres apagaram suas velas e quebraram o círculo, ao passarem seus pés na linha onde elas estavam. Cibele me mandou fazer o mesmo. Aquilo foi meio que uma desilusão e eu apenas a obedeci. Já não tinha mais nada o que perder. Em breve, eu acordaria desse sonho maluco, tudo acabaria e eu poderia viver o meu luto em paz.

— Menina, você precisa prestar muita atenção agora. Sei que te devo explicações, mas o tempo é curto, por isso, mais uma vez peço que confie em mim.

— Cibele, você tem certeza que ela é capaz? Já tivemos outras mais crentes, que sucumbiram.

— Confie em mim e na Deusa. A minha sobrinha é a pessoa certa.

— Calma aí! O que você quis dizer com sucumbiram?

— Nada, ignore ela. Preciso que você se concentre. Não importa o que aconteça. Você não pode deixar de recitar o que está escrito na página do lírio no grimório. O maldito começará seu ritual no ápice da lua e, devemos estar preparadas. Cubra a cabeça com o capuz. Ninguém pode nos reconhecer. — disse Cibele.

Cibele foi comigo até um determinado lugar e me disse para permanecer o mais discretamente possível. Assim que ela se afastou, pude ver melhor a barbárie que estavam fazendo.

Quatro mulheres estavam amarradas a um tronco de madeira, com uma pilha de palha aos seus pés. Elas estavam sujas e muito machucadas. Suas roupas rasgadas, deixavam muitas partes de seus corpos à mostra, assim como seus profundos ferimentos.

A população em volta se regozijava com a cena. Muitos gritavam para que as mulheres fossem queimadas, outros riam e outros jogavam alimentos podres em suas direções. E me perguntei que diabos era aquele lugar e como isso ainda era permitido.

Quatro homens se aproximaram com tochas acesas enquanto outro se posicionaram no meio das mulheres, as chamando de bruxas, exortando a população para aquele ato extremamente cruel, que jamais pensei em presenciar. Meus olhos se arregalaram, pensei em intervir, mas meus olhos se cruzaram com Cibele, em seguida as mulheres se revelaram.

Começou com um sussurro, mas a intensidade e a força do que recitávamos aumentou.

— Luce ut pluma, dura ut tabula. Luce ut pluma, dura ut tabula. Luce ut pluma, dura ut tabula… ­— recitei com as mulheres.

Bruxas… bruxaria… heresia… matem elas… queimem elas

A população gritava ensandecida ao verem que as mulheres levitavam com os pedaços de madeira que as prendiam.

— Nunc vides, iam non facis. Nunc vides, iam non facis.

Todas recitávamos o mantra em uníssono. Eu, atenta às outras mulheres, fiz o mesmo que elas, juntas estalamos os dedos. E num piscar de olhos as quatro mulheres que levitavam desapareceram.

Ouvi um grito gutural vindo do homem agitador. Ele levantou sua mão e com um simples gesto quebrou o pescoço das mulheres que pouco tempo atrás fizeram o círculo comigo. Restando apenas Cibele e eu. Constatando a situação em que nos encontrávamos, Cibele gritou para que eu começasse a recitar o que estava escrito no grimório.

Em seguida, ela foi erguida por algum tipo de força que eu não via. Ela segurava seu pescoço como se alguém a enforcasse. Nervosa e com as mãos trêmulas, abri o grimório e me amaldiçoei por demorar a encontrar a página do lírio. Li aquelas palavras esquisitas que para mim não faziam sentido e eu duvidava que aquilo estivesse ajudando Cibele. O homem parecia ficar cada vez mais forte, assim como a lua ficava cada vez mais vermelha.

— Já chega! Solta ela! AGORA! — gritei, jogando o grimório na direção do homem.

— Ora, ora, o que temos aqui?! Não se meta no que você não sabe. — disse o homem, soltando Cibele enquanto fazia o grimório virar pó diante de meus olhos.

Uma força descomunal invadiu meu corpo. Senti que eu havia aumentado de tamanho, era como se eu tivesse cedido meu corpo a algum ser poderoso. Um brilho avermelhado saía de todo o meu corpo.

— Sou a filha prometida. A filha nascida na lua de sangue e banhada com o sangue sagrado da Deusa. Irmãs precisaram se sacrificar para esse momento e hoje elas serão compensadas.

Minha voz estava diferente, com muita potência. Ela ecoava pela pequena vila.

­­ — Sua era de maldade e de distorção dos ensinamentos da Deusa e do Deus terreno acabou. Essas pobres almas que você matou hoje foram as últimas. Nunca mais você alimentará seu espírito e seu poder com elas. Suplique, peça clemência, talvez sua vida seja poupada do sofrimento eterno.

— Não me rebaixarei a você. Essa profecia de filha prometida não existe e nunca existirá. Isso é tudo invenção dessas bruxas tolas, que tentam me destruir, desde que o mundo é mundo, mas não são capazes. Você é que tem que pedir clemência.

— Quanta insolência, mero feiticeiro. O que lhe foi dado, agora facilmente será tirado.

— O que você fez? MEUS PODERES! MINHAS FORÇAS! Como ousa?! Estou fraco, como isso é possível.

— Agora você pagará pelos seus pecados aqui na terra, com a mesma crueldade que você tanto inferiu a tantas pessoas. E sua alma sofrerá eternamente.

Acordei com um grito e reconheci o meu quarto. Eu estava com a respiração acelerada e me senti aliviada por tudo aquilo ser apenas um sonho. Levantei da cama e um objeto quase caiu nos meus pés sujos de lama… O grimório…


 

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