Lua de Sangue - Parte II


O projeto "Um Mês Um Conto" está de volta durante o mês de Março/2022


Lua de Sangue é um conto de fantasia, escrito para o projeto "Um Mês, Um Conto".


A antologia completa poderá ser adquirida posteriormente como livro físico e também em formato de e-book.


Aproveite a leitura!


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Lua de Sangue - Parte II


— O quê? Lua de sangue? Credo, a senhora pirou de vez, né?! Olha, já deu, não fico mais um minuto aqui sem respostas e só ouvindo loucuras.

Eu estava quase saindo da casa quando me vi voltando para a cadeira. Era como se alguém tivesse amarrado uma corda muito grossa e pesada em minha cintura e me puxando com força, me fazendo sentar na cadeira onde eu estava e em seguida, a mesma força fechou a porta.

— Tudo bem, tudo bem, isso foi um belo truque. — disse arregalando os olhos, assustada com o que havia acontecendo.

O gato, sem cerimônia, pulou em meu colo parecendo pesar uma tonelada. Tentei levantá-lo, empurrá-lo para ele sair de cima de mim, mas ele não se move um único centímetro. Ele apenas ficava me encarando com seus olhos em fenda. E naquele momento me senti desconfortável por estar perto de um gato.

A mulher não falou nada, apenas se levantou e começou a pegar algumas coisa. Colando todas dentro de uma sacola de palha suja no fundo, que parecia que rasgaria a qualquer momento e continuou me ignorando apesar dos meus protestos.

— Vamos não temos mais tempo, o sol já está se pondo precisamos ir antes que a lua atinja o seu ápice. Temos muito o que fazer e principalmente não podemos ser vistas, por isso, temos que ir agora.

— Eu não vou a lugar nenhum com você!

— Mas você precisa, é o seu destino. Cadê o grimório?

— Mas que droga! Isso só pode ser um maldito pesadelo, já estou de saco cheio disso. Você só me enrola, não me diz quem é, nem me fala o seu nome e agora quer saber aquele livro encardido.

— Gostando ou não, você é a escolhida. — disse saindo da casa, seguida pelo gato.

Minhas pernas doloridas agradeceram o alívio e sem alternativa saí da casa e fui atrás deles.

— Isso só pode ser uma brincadeira não é. — disse ao ver a mulher estendendo a mão para eu subir. — Eu não subirei nessa coisa. Olha, se você tiver um telefone, eu chamo um táxi, te deixo onde você quiser e vou para casa.

— Anda logo, não temos tempo, sobe! Não tem telefone aqui e essa é a nossa melhor opção para chegar ao centro da vila.

— Centro da vila?

Os olhos da minha suposta tia de verde âmbar se tornaram pretos profundos e penetrantes. Um arrepio percorreu minha espinha. Engoli em seco e antes que ela falasse mais alguma coisa, subi na carroça, temendo pela primeira vez, pela minha vida. Percebi que o tal grimório, o mesmo com a flor de lírio, estava ao seu lado e me perguntei como e onde ela tinha achado aquilo, já que a última vez que o vi ele estava na mesa da minha cozinha. Balancei a cabeça na tentativa de tirar mais essa doideira da mente, e me convenci que aquele era outro grimório com um outra flor.

Minha coluna já estava gritando de tanta dor, quando paramos. A impressão que dava era que não tínhamos ido a lugar nenhum, tudo ao redor era igual, árvores, grama, terra batida, exceto pela gritaria vinha de algum lugar ao fundo. Aproximei-me, chegando perto o suficiente para ver e ouvir melhor o que estava acontecendo.

— Mas o que é aquilo?! Temos que ajudar, chamar a polícia, fazer alguma coisa. Aquilo é barbárie.

— É isso que faremos aqui. Você é a filha prometida do nosso coven e com a conjuntura da Lua de Sangue, teremos a oportunidade de ajudar o coven a combater o mal. Aquele mal!

— O quê?! Quer saber, já chega! Isso tá cada vez mais louco. — disse virando de costas e indo em direção à multidão que eu via à frente.

Ouvi um murmúrio e uma sensação de leveza me percorreu. Senti uma leve brisa que fez gelar meus pés descalços e sujos. Olhei para eles e me vi flutuando e sendo afastada de onde eu iria.

— Você não conseguirá nada, indo até lá. Apenas ser morta. O seu dever com suas irmãs por enquanto é aqui. Eu já tracei o círculo mágico, agora preciso que você fique dentro dele e posicione essas cinco velas vermelhas, que representam os cinco elementos. Pega o grimório, na página do lírio…

— Lírio? Como você…?

— Ah menina, como você ainda não entendeu?! Sou e sempre serei sua tia Cibele. Eu te disse que nos veríamos em breve. Isso tudo faz parte do destino, por isso, agora, preciso que confie em mim.

— Ah tá, tá bem, sei. Já estou cansada de todo essa maluquice. — disse pegando o grimório.

— Vamos lá criança, estamos com pouco tempo, o ápice está próximo. Veja o que está escrito na página, leia com atenção. Você saberá o que fazer.

— Saco! Tá! Grimório, vamos ver… estrela de cinco pontas no círculo… aumento de força e magia… nossa isso é ridículo… bem, espírito, água, ar, fogo, terra, tá! Esses são os tais elementos?

— Oh Deusa, esqueci que você não sabe nada disso. Sim, são e cada vela é para cada elemento. Você é o Espírito e é lá que você deve ficar, mas no círculo. Eu sou Água e outras três irmãs são o Fogo, o Ar e a Terra e que vão ocupar os outros lugares. Elas devem estar quase chegando. — disse a mulher apontando para as direções de onde eu deveria colocar as velas. — Ah, olá irmãs, abençoada seja a Deusa, por vocês terem chegado bem. Alguém as seguiu?

Olhei para as quatro mulheres loucas conversando e reparei que uma delas era a senhora que esbarrei quando cheguei nesse mundo louco. Elas me olhavam estranhamente, como se me avaliassem, enquanto eu ouvia gritos ao longe e eu ali, brincando de acender velas, quase prisioneira de uma mulher louca igual a minha tia.

— Minha menina, erga suas mãos para a Lua de Sangue, feche os olhos e sinta o poder da Deusa e da Lua correr em seu sangue e tente nos acompanhar.

“Que a força da Deusa e da Lua Sagrada de Sangue corra dentro de nossos corpos, assim como nossa própria força representada em nossos sangues.”

O grimório que eu havia deixado no chão ao meu lado, se abriu sozinho e suas folhas foram passadas rapidamente, sem que ninguém as tocasse e parou na folha do lírio. Ele se ergueu diante dos meus assustados olhos, enquanto as mulheres repetiam as palavras como um mantra.

Algo dentro de mim despertou uma vontade de também recitar aquelas palavras e li algumas vezes a frase no grimório em voz alta e quanto fechei meus olhos, senti toda a energia que circulava dentro daquele círculo. Um vento forte nos circundava. Nossas capas esvoaçavam, assim como todas as folhas caídas no chão. As árvores ao nosso redor se estremeciam e pareciam estar em sintonia com o que estava acontecendo.

Senti um choque em minhas mãos, porém em nenhum momento quis sair daquele lugar. O que eu estava experenciando era surpreendente demais para não aproveitar. Minhas mão pareciam pegar fogo e todo esse calor foi descendo pelo meu corpo, que foi tomado por uma intensa energia, uma força descomunal.

“Que assim seja e assim se faça! Graças à Deusa!”

Abri meus olhos e surpresa, vi que meus pés estavam indo em direção ao chão. Olhei ao redor e as mulheres ali presentes também faziam a mesma coisa, com a mesma leveza e delicadeza. Não sabia como, mas de alguma forma toda aquela energia havia feito com que levitássemos.

— Agora irmãs, estamos prontas. — disse Cibele.

...

 

A terceira parte será publicada em 24 de Março.


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