Lua de Sangue - Parte I

Atualizado: 18 de mar.


O projeto "Um Mês Um Conto" está de volta durante o mês de Março/2022


Lua de Sangue é um conto de fantasia, escrito para o projeto "Um Mês, Um Conto".


A antologia completa poderá ser adquirida posteriormente como livro físico e também em formato de e-book.


Aproveite a leitura!

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Lua de Sangue - Parte I


Chegar em casa e encontrar meus pais na minha cozinha, não era bom sinal. Principalmente quando da porta da entrada conseguia ouvir minha mãe reorganizando minha cozinha e meu pai pelo cheiro, cozinhando.

Não pude deixar de notar os vasos de lírios brancos na minha sala de estar. Um cheiro familiar invadiu minhas lembranças. Era o cheiro da minha tia. De sua flor preferida. Ela sempre dizia que o lírio representava a pureza do corpo e da alma, e da renovação da inocência.

Isso não é bom!

— Mãe! Pai!

— Oh minha filha, que bom que você chegou. Senta, eu acabei de fazer uma lasanha vegetariana para você.

Merda! Isso não é bom.

Minha mãe me olhou e apenas acenou com a cabeça, continuando a trocar os pratos de lugar.

— Então, quando é que vocês vão me dizer o que está acontecendo? Vocês estão se separando? Hum, nossa, pai, que delícia, dessa vez você caprichou. — disse após a primeira garfada na lasanha.

— Querida, é a sua tia… — disse meu pai.

Essa foi a última coisa que registrei. Desse dia tenho apenas flashes. O olhar de tristeza do meu pai. O rosto destroçado da minha mãe. O caixão fechado. As flores nos longos cabelos grisalhos presos com uma trança na foto da minha tia ao lado do caixão. Pessoas chorando. Caixão fechado. Um arco-íris e o chão molhado.

Agora eu estava sozinha na minha cama, com os olhos já secos, inchados de tanto chorar, encarando o teto e essas lembranças picotadas. Levantei depois que a campainha tocou. Uma encomenda. Mecanicamente assinei o recebimento e peguei a caixa.

Fui para a cozinha e coloquei-a na mesa. Abri uma garrafa de vinho e me servi um pedaço de lasanha fria. Enquanto eu empurrava a comida de um lado para o outro, esperando as taças de vinho fazerem efeito, olhei para a caixa.

Remetente: Cibele Paz

Li e reli o que estava escrito na caixa um milhão de vezes. Caso alguém me contasse, eu não acreditaria. Era da minha tia. Vi seu caixão sendo enterrado há menos de vinte e quatro horas. As lágrimas, que pensei não existirem mais, voltaram enquanto a abria. Tinha velas, alguns vidrinhos com líquidos, bijuterias, pedras, uma espécie de caderno de capa de couro e uma caixa de chás. E um bilhete. Com as mãos trêmulas e lágrimas embaçando minha vista li o que estava escrito.

“Se você está com meus bens mais preciosos, é porque você já sabe o que aconteceu. Mas nem tudo é o que parece, minha vida é eterna. Voltei para o meu verdadeiro lar. Te amo e sempre te amarei. Nos vemos em breve, mais rápido do que você imagina.”

Abri a caixa de chá da minha tia e preparei um para mim. Tomei-o enquanto pegava o caderno, com capa de couro e alguns símbolos que tive a sensação de já ter visto antes.

— Grimório, ai, ai tia, você e as suas esquisitices. — disse ao ler o que estava escrito na capa.

Mais do que curiosa, eu queria me sentir perto dela mais uma vez, então abri o caderno. Pelo lado de fora, era bem conservado, mas por dentro suas folhas estavam amareladas e até um pouco duras ao toque. Reconhecia a letra da minha tia. Folheando por algum tempo, achei um lírio entre duas páginas. E me detive nelas.

— Necesse est ut septima filia septimae filiae praeterita sit et salvet septem filias ad implendum prophetiam.

Por algum motivo, recitei mais de uma vez. A cada palavra, as coisas ao meu redor tremiam, as luzes piscavam e senti um vento forte me circundar. Um cheiro forte de terra molhada me invadiu.

— Nossa criança! De onde você veio? E isso são trajes para se andar por aí?! — disse uma senhora de vestido longo com uma capa que a protegia da garoa que caía.

— O quê? De onde eu vim?! Eu moro…

Virei-me para mostrar minha casa, mas não a vi. Olhei em todas as direções e não reconheci o lugar.

— Acho que a mistura de vinho com o chá não me fez bem. — disse fechando meu roupão, tentando me aquecer.

— Criança, não fale isso por aí. Estamos passando por tempos estranhos. Tempos perigosos.

— O quê? Do que a senhora está falando?

— Ora criança, por qualquer motivo estão nos jogando na fogueira? — disse a senhora, continuando seu caminho.

— Fogueira? Mas que po… Que mulher maluca! Credo, onde eu estou?! Nunca mais tomo aquele maldito chá com vinho.

Procurei ao redor e não havia nada além de um caminho de terra, árvores a perder de vista. Quanto mais eu andava, menos conseguia entender como havia chegado ali. Descalça, usando apenas o meu roupão, era difícil acreditar que eu estava naquele lugar, daquela forma.

O frio aumentava a cada passo que eu dava. Minha roupa estava úmida com toda aquela neblina que aumentava a cada passo. Meus pés pareciam que iam congelar a qualquer momento, além deles estarem totalmente sujos. E respingos de lama batiam nas minhas pernas. Caminhei por mais algum tempo e avistei uma cabana de madeira. Corri o mais rápido que meus pés escorregadios permitiam. Conforme eu me aproximava mais eu sentia que provavelmente ninguém morava naquele lugar.

A cabana estava em péssimo estado. Musgos tomavam conta de quase toda fachada. Algumas madeiras pareciam estar apodrecidas. A grama estava tão alta que mal vi quando um gato preto de olhos amarelos, saiu do meio dela e se aproximou. Lembrei do gato da minha tia e achei engraçado o quanto eles se pareciam, até o curioso formato de número sete no único pedaço de pelo branco em seu dorso e me perguntei o que havia acontecido com ele.

Após fazer um carinho na cabeça do gato, que mal deixava eu dar um passo, sem se roçar na minha perna. Bati na porta, torcendo, quase implorando para que alguém estivesse em casa.

— Você demorou, o que aconteceu?

— Ti-tia Su?! — disse surpresa, meus olhos se encheram de lágrimas.

— Ah minha menina, eu sabia que você acharia o meu Grimório e saberia o que fazer. Mas venha, você deve estar morrendo de frio com essas roupas. Tenho um chá quentinho te esperando.

— Sim, eu estou com frio sim. Não, calma aí! Como assim você me chamou?! Não tem nem vinte e quatro horas que você foi, você foi… ai meu Deus, o que está acontecendo? Quem é você? Você não pode ser minha tia.

— Vamos, venha, vamos entrar, aqui fora não é seguro. Lá dentro te conto tudo.

— O quê? Não mesmo! Não entrarei na casa de alguém, que está se passando pela minha tia. Que brincadeira mais de mal gosto! Quem está fazendo isso? — gritei.

Em seguida, senti um arranhão na minha panturrilha. O susto misturado com a dor, me fez entrar na casa. E assim que saí da frente da porta, tentando ver o estrago que o gato havia feito, minha suposta tia me empurrou para poder fechar a porta da cabana.

— Você precisa educar esse seu gato. Ele está vacinado?

— Não sei preocupe menina, você verá que nada aconteceu com sua perna. — disse minha suposta tia me entregando uma caneca que saía fumaça de dentro e colocando uma capa em meus ombros.

E por mais estranho que parecesse, olhei onde teria o arranhão, que a poucos segundos ardia, não havia nada além de lama.

Eu estava quase bebendo daquele líquido quente, quando me lembrei da última vez que bebi um chá.

— Então, você conseguiu o que queria, entrei. Agora, é a sua vez. O que está acontecendo? — disse colocando a caneca o mais longe possível na mesa.

A mulher de repente ficou estranha, tensa. Correu até a janela. Devagar e com cuidado, olhou para o lado de fora e rapidamente a fechou.

— Não podemos mais perder tempo. De hoje não pode passar, teremos a Lua de Sangue.

...

 

A segunda parte será publicada em 17 de Março.


E a terceira parte será publicada em 24 de Março.


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