É uma antologia de histórias envolvendo os lugares amaldiçoados da capital paulistana, sobre os fantasmas que ainda assombram a Terra da Garoa. E uma dessas histórias é "Noite no Teatro".

"Os Fantasmas da Garoa"

Noite No Teatro

É quase inacreditável onde vim parar. Meu maior sonho era brilhar, ser famosa e atuar nas melhores peças do Tetro Municipal de São Paulo. Depois de tantos sacrifícios e investimentos, eu enfim consegui entrar para o corpo do teatro, mas não como atriz e sim como vigilante.

Ouvi algumas histórias esquisitas do que acontecia no teatro durante à noite. Até ouvi dizer que pessoas morreram lá, mas era muito difícil de acreditar. O meu supervisor me mostrou toda a rotina e tudo o que eu deveria fazer ao longo do expediente, que era quase nada. De hora em hora eu deveria realizar a ronda e verificar as portas.

Na minha primeira ronda com o supervisor, não consegui observar toda a beleza que existia naquele lugar. Então quando a fiz sozinha, foi incrível. Observei cada detalhe do hall de entrada, imponente com a escadaria ao centro, estátuas e quadros históricos, além dos maravilhosos vitrais. Que imaginei o quão bonitos seriam de dia. Também fui à sala de concertos, salão nobre e salão dos arcos. Não me senti muito à vontade na área dos arcos, era subterrâneo, meio estranho, mas não aconteceu nada. Assim como nas outras rondas, até dar o meu horário.

No dia seguinte, no meio do meu turno, quando eu estava no salão dos arcos, comecei a ouvir vozes, uma música, vindo de algum lugar. Eu sabia que alguns artistas poderiam ficar até mais tarde ensaiando, mas eu tinha certeza que não havia ninguém. Refiz o meu caminho para encontrar onde estava vindo o som. E fui levada até a sala de concertos e entrei pela parte onde o público ficava, de frente para o palco. Com certeza era dali que vinha e acendi a luz da sala.

— Que merda é essa? Hei, como você entrou aqui? Você tem autorização?

Comecei a descer as escadas para ir até o palco, quando me aproximei, num piscar de olhos, o homem sumiu. Aquilo foi estranho, olhei ao redor e minha cabeça quase explodiu de tão nervosa que fiquei. Procurei em todos os cantos possíveis, até mesmo embaixo das poltronas. Fiquei em estado de alerta o resto da noite, mas nada mais aconteceu.

No dia seguinte, quando voltei para o teatro, achei melhor não comentar com ninguém o que eu teria supostamente visto. E se me perguntassem, negaria até o fim qualquer coisa. A noite estava transcorrendo bem, eu até tinha esquecido do que havia acontecido. Porém, mais uma vez, quando eu estava no salão dos arcos, ouvi a música e vozes. Corri o mais rápido que consegui. Ao chegar na sala de concerto, eu estava esbaforida, mas dessa vez entrei pelos bastidores e sem fazer muito barulho e sem acender a luz, utilizando apenas minha lanterna, me aproximei.

Assim que cheguei perto o suficiente, iluminei na direção da voz, mais uma vez nada existia lá. Apontei minha lanterna para vários locais, mas não tinha ninguém. Acendi as luzes da sala e assim como no dia anterior, eu estava sozinha. Aquilo me deixou encucada. Um dia, tudo bem, podia ser coisa da minha cabeça, mas dois dias? Como isso seria coisa apenas da minha cabeça?

Três dias, quatro, cinco, uma semana havia passado e todos os dias o homem no mesmo horário surgia. Eu sempre tentando, de alguma forma, obter provas de sua existência, mas nada. Não consegui absolutamente nada. Consegui apenas ficar com a mente abalada. E cada vez mais estressada, eu nem dormia direito no meu pouco tempo livre. O pouco que eu cochilava, as imagens do teatro vinham à mente. Pensei em desistir do trabalho e nunca mais voltar naquele teatro, mas as contas não me permitiam.

Quando cheguei para trabalhar, no último dia, eu estava me sentindo um pouco diferente, algo me incomodava, mas pensei que fosse um pouco da ansiedade do que aconteceria em breve, assim como nos outros dias. Logo que entrei no teatro, me surpreendi por ver meu supervisor me esperando, achei até que seria demitida. Porém, ele estava ali para apenas me dizer que hoje eu não deveria entrar na sala de concertos, que ela deveria permanecer trancada a noite inteira, não importando o que acontecesse. Era algo relacionado à pintura. Não entendi bem, ele foi meio vago, dizia coisas meio truncadas e quando tentei entender, ele simplesmente foi embora.

Decidi não obedecer às ordens do meu supervisor, afinal de contas, era só tinta e eu havia me preparado, tinha certeza que dessa vez daria certo. Então, no horário da aparição, não fiz a ronda completa, fiquei apenas na sala de concertos, escondida atrás de uma das cortinas. Apontei meu celular na direção onde aquela coisa normalmente surgia e no horário exato, o homem apareceu. Ele se materializou na minha frente, usando uma capa longa preta, que deslizava pelo palco enquanto ele andava, tinha um enorme bigode e algo pontudo em seus cabelos, me fazendo lembrar de chifres. Eu não reparei antes, mas assim que ele apareceu, o ambiente começou a esquentar. Comecei a gravar com o meu celular e quando olhei para o aparelho, para minha surpresa, uma luz forte avermelhada, aparecia no lugar do homem no palco.

Por algum motivo ele parou e olhou para mim. Havia raiva em seu olhar. Então começou a correr na minha direção. No susto, deixei meu celular cair no chão, por breves minutos, pensei em tentar recuperar o aparelho, mas não deu tempo. O homem rapidamente chegou próximo a mim. O calor que irradiava daquele ser era insuportável. Me senti como se eu estivesse muito próxima a uma fogueira. Tentei correr, tentei fugir, mas não adiantou. De repente, fui projetada contra uma das paredes do teatro e ao olhar ao redor, aquela coisa havia sumido e me deixado com o corpo ardendo pelo calor e dolorido pelo impacto.

Levantei e corri para acender as luzes da sala. Eu estava assustada, ou melhor, apavorada. Peguei meu celular e saí daquele lugar. Quando cheguei no hall de entrada, o ser apareceu na minha frente, impedindo que eu chegasse até a porta. Me afastando, corri até a primeira porta de saída de emergência na lateral. Eu não precisava olhar para saber que ele vinha atrás de mim, o calor intenso me acompanhava de perto. Toquei na maçaneta para abrir a porta, porém estava tão quente que de imediato me afastei, ouvindo a risada diabólica daquele homem.

Para onde eu tentava ir, aquele ser e o seu calor me acompanhavam. Demorei, mas percebi que ele de alguma forma estava me encurralando para voltar para a sala de concertos. Quando cheguei no palco, ele sumiu mais uma vez, assim como o calor. Eu estava tão cansada, não aguentava mais tudo aquilo. Eu tinha várias bolhas pelo corpo e minhas costas doíam muito. Sentei no palco, tinha medo que se eu saísse dali tudo voltasse a acontecer e diferente dos filmes de terror, eu não tinha mais condições de subir e descer escadas, correr de um lado para o outro.

Sem eu esperar, as luzes do palco se acenderam, uma música começou a tocar. No susto, só tive tempo de me arrastar um pouco para trás, na direção das cortinas. O homem apareceu, mas estava diferente, apesar de usar as mesmas roupas. Suas expressões eram suaves, porém seu olhar escondia alguma coisa. A música parou e ele começou a falar:

“Eu sou Mephistópheles. Mephistópheles, é o diabo. E todos vocês são Faustos. Faustos, os que vendem a alma ao diabo.”

— Mas que droga é essa?

O homem continuou a recitar palavras desconexas que eu não conseguia entender. Eu o vi se encaminhando para os bastidores, então me levantei, para aproveitar o momento. Desci os pequenos degraus do palco e levei um susto ao ouvir um baque. Engolindo em seco, criei coragem e me virei para ver o que era. Em seguida, soltei um grito desesperador e corri até a porta do lado oposto de onde ele estava pendurado.

Foi então que reparei que ela estava trancada. Engolindo em seco, forcei a porta enquanto sentia que o calor voltava e ele se aproximava de mim. Forcei, forcei e forcei. Bati, gritei até não poder mais e nada. Eu conseguia ouvir o meu supervisor do outro lado da porta, mas não entendia o que ele dizia. Quando dei por mim, eu estava no palco no mesmo lugar do homem.

— Mas que droga! Por que essa menina não me obedeceu? Eu disse para ela não entrar lá. Alguém chama a polícia, rápido, aconteceu de novo. Droga, a imprensa vai adorar mais esse escândalo.