Lua de Sangue

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Lua de Sangue

 

Chegar em casa e encontrar meus pais na minha cozinha não era bom sinal. Principalmente quando, da porta da entrada, conseguia ouvir minha mãe reorganizando minha cozinha e meu pai, pelo cheiro, cozinhando.

Não pude deixar de notar os vasos de lírios brancos na minha sala de estar. Um cheiro familiar invadiu minhas lembranças. Era o cheiro da minha tia. De sua flor preferida. Ela sempre dizia que o lírio representa a pureza do corpo e da alma e a renovação da inocência.

Isso não é bom!

— Mãe! Pai!

— Oh, minha filha, que bom que você chegou. Senta, eu acabei de fazer uma lasanha vegetariana para você.

Merda! Isso não é bom.

Minha mãe me olhou e acenou com a cabeça, continuando a trocar os pratos de lugar.

— Então, quando é que vocês vão me dizer o que está acontecendo? Vocês estão se separando? Hum, nossa, pai, que delícia, dessa vez você caprichou.

— Querida, é a sua tia… — disse meu pai.

Essa foi a última coisa que registrei. Desse dia tenho apenas flashes. O olhar de tristeza do meu pai. O rosto destroçado da minha mãe. O caixão fechado. As flores nos longos cabelos grisalhos, presos com uma trança na foto da minha tia ao lado do caixão. Pessoas chorando. Um arco-íris e o chão molhado.

Agora eu estava sozinha na minha cama, com os olhos já secos, inchados de tanto chorar, encarando o teto e essas lembranças picotadas. Levantei depois que a campainha tocou. Uma encomenda. Mecanicamente, assinei o recebimento e peguei a caixa.

Fui para a cozinha e coloquei-a na mesa. Abri uma garrafa de vinho e me servi um pedaço de lasanha fria. Enquanto eu empurrava a comida de um lado para o outro, esperando as taças de vinho fazerem efeito, olhei para a caixa.

Remetente: Cibele Paz

Li e reli o que estava escrito na caixa milhões de vezes. Caso alguém me contasse, não acreditaria. Era da minha tia. Vi seu caixão sendo enterrado há menos de vinte e quatro horas. As lágrimas, que pensei não existirem mais, voltaram. Dentro tinha velas, alguns vidrinhos com líquidos, bijuterias, pedras, uma espécie de caderno de capa de couro e uma caixa de chás. E um bilhete. Com as mãos trêmulas e lágrimas embaçando minha vista, li o que estava escrito.

“Se você está com meus bens mais preciosos, é porque você já sabe o que aconteceu. Mas nem tudo é o que parece, minha vida é eterna. Voltei para o meu verdadeiro lar. Te amo e sempre te amarei. Nos vemos em breve, mais rápido do que você imagina.”

Abri a caixa de chá da minha tia e preparei um para mim. Tomei-o enquanto pegava o caderno, com capa de couro e alguns símbolos que tive a sensação de já ter visto antes.

— Grimório... Ai,  tia, você e suas esquisitices — disse ao ler o que tinha na capa.

Mais do que curiosa, eu queria me sentir perto dela mais uma vez, então abri o caderno. Pelo lado de fora, era bem conservado, mas por dentro suas folhas estavam amareladas e até um pouco duras ao toque. Reconhecia a letra da minha tia. Folheando por algum tempo, achei um lírio entre duas páginas. E me detive nelas.

Necesse est ut septima filia septimae filiae praeterita sit et salvet septem filias ad implendum prophetiam.

Por algum motivo, recitei mais de uma vez. A cada palavra, as coisas ao meu redor tremiam, as luzes piscavam e senti um vento forte me circundar. Um cheiro forte de terra molhada me invadiu.

— Nossa, criança! De onde você veio? E isso são trajes para se andar por aí?! — disse uma senhora de vestido longo com uma capa que a protegia da garoa que caía.

— O quê? De onde eu vim?! Eu moro…

Virei-me para mostrar minha casa, mas não a vi. Olhei em todas as direções e não reconheci o lugar.

— Acho que a mistura de vinho com o chá não me fez bem — disse, fechando meu roupão, tentando me aquecer.

— Criança, não fale isso por aí. Estamos passando por tempos estranhos e perigosos.

— O quê? Do que a senhora está falando?

— Ora, criança, por qualquer motivo estão nos jogando na fogueira? — disse a senhora, continuando seu caminho. — disse a senhora, continuando seu caminho.

— Fogueira? Mas que po… Que mulher maluca! Credo! Onde eu estou? Nunca mais tomo aquele maldito chá com vinho.

Procurei ao redor e não havia nada além de um caminho de terra, árvores a perder de vista. Quanto mais eu andava, menos conseguia entender como havia chegado ali. Descalça, usando apenas o meu roupão, era difícil acreditar que eu estava naquele lugar, daquela forma.

O frio aumentava a cada passo que eu dava. Minha roupa estava úmida com toda aquela neblina, que aumentava a cada passo. Meus pés pareciam que iam congelar a qualquer momento, além de eles estarem totalmente sujos. E respingos de lama batiam nas minhas pernas. Caminhei por mais algum tempo e avistei uma cabana de madeira. Corri o mais rápido que meus pés escorregadios permitiam. Conforme eu me aproximava mais, eu sentia que ninguém morava naquele lugar.

A cabana estava em péssimo estado. Musgos tomavam conta de quase toda fachada. Algumas madeiras pareciam estar apodrecidas. A grama estava tão alta que mal vi quando um gato preto de olhos amarelos saiu do meio dela e se aproximou. Achei engraçado o quanto ele se parecia com o gato da minha tia, tinha até o curioso formato de número sete no único pedaço de pelo branco em seu dorso, e me perguntei o que havia acontecido com o bichano da minha tia.

Após fazer carinho na cabeça do gato, que mal deixava eu dar um passo sem se roçar na minha perna, bati na porta, torcendo, quase implorando para que alguém estivesse na casa.

— Você demorou, o que aconteceu?

— Ti-tia Bel?! — disse surpresa, meus olhos se enchendo de lágrimas.

— Ah, minha menina, eu sabia que acharia o meu grimório e saberia o que fazer. Mas venha, você deve estar morrendo de frio. Tenho um chá quentinho te esperando.

— Sim, eu estou com frio, sim. Não, calma aí! Como assim você me chamou?! Não tem nem vinte e quatro horas que você foi, você foi… Ai, meu Deus, o que está acontecendo? Quem é você? Você não pode ser minha tia.

— Vamos, venha, vamos entrar, aqui fora não é seguro. Lá dentro te conto tudo.

— O quê? Não mesmo! Não entrarei na casa de alguém que está se passando pela minha tia. Que brincadeira de mal gosto! Quem está fazendo isso? — gritei.

Em seguida, senti um arranhão na minha panturrilha. O susto, misturado com a dor, me fez entrar na casa. Assim que saí da frente da porta, tentando ver o estrago que o gato havia feito, minha suposta tia me empurrou para poder fechar a porta da cabana.

— Você precisa educar esse seu gato. Ele está vacinado?

— Não se preocupe, menina, você verá que nada aconteceu com sua perna — disse a sósia da minha tia me entregando uma caneca da qual saía fumaça e colocando uma capa em meus ombros.

Por mais estranho que parecesse, olhei para onde teria o arranhão, que há poucos segundos ardia, mas não havia nada além de lama.

Eu estava quase bebendo daquele líquido quente quando me lembrei da última vez que bebi um chá.

— Então… Você conseguiu o que queria, entrei. Agora, é a sua vez. O que está acontecendo? — disse colocando a caneca o mais longe possível de mim na mesa.

A mulher de repente ficou estranha, tensa. Correu até a janela. Devagar e com cuidado, olhou para o lado de fora e rapidamente a fechou.

— Não podemos mais perder tempo. De hoje não pode passar, teremos a Lua de Sangue.

— O quê? Lua de sangue? Credo! A senhora pirou de vez, né?! Olha, já deu, não fico mais um minuto aqui sem respostas e só ouvindo loucuras.

Eu estava quase saindo da casa quando me vi voltando para a cadeira. Era como se alguém tivesse amarrado uma corda grossa e pesada em minha cintura e me puxado com força, me fazendo sentar na cadeira onde eu estava. Em seguida, a mesma força fechou a porta.

— Tudo bem, tudo bem, isso foi um belo truque — disse arregalando os olhos, assustada com o que havia acontecendo.

O gato, sem cerimônia, pulou em meu colo, parecendo pesar uma tonelada. Tentei levantá-lo, empurrá-lo para ele sair de cima de mim, mas ele não se moveu um único centímetro. Ele apenas ficava me encarando com seus olhos em fenda. E naquele momento me senti desconfortável por estar perto de um gato.

A mulher não falou nada, apenas se levantou e começou a pegar algumas coisas. Colocava todas dentro de uma sacola suja de palha, que parecia que rasgaria a qualquer momento, e continuou me ignorando apesar dos meus protestos.

— Vamos! Não temos mais tempo, o sol já está se pondo, precisamos ir antes que a lua atinja o seu ápice. Temos muito o que fazer e não podemos ser vistas, por isso, temos que ir agora.

— Eu não vou a lugar nenhum com você!

— Mas você precisa, é o seu destino. Cadê o grimório?

— Mas que droga! Isso só pode ser um maldito pesadelo, já estou de saco cheio. Você só me enrola, não me diz quem é, não fala o seu nome e agora quer saber daquele livro encardido.

— Gostando ou não, você é a escolhida — ela disse saindo da casa, seguida pelo gato.

Minhas pernas doloridas agradeceram o alívio e, sem alternativa, saí da casa e fui atrás deles.

— Isso só pode ser uma brincadeira, não é? — disse ao ver a mulher estendendo a mão para eu subir. — Eu não subirei nessa coisa. Olha, se você tiver um telefone, eu chamo um táxi, te deixo onde você quiser e vou para casa.

— Anda logo, não temos tempo, sobe! Não tem telefone aqui e essa é a nossa melhor opção para chegar ao centro da vila.

— Centro da vila?

Os olhos dela de verde âmbar se tornaram pretos, profundos e penetrantes. Um arrepio percorreu minha espinha. Engoli em seco e, antes que ela falasse mais alguma coisa, subi na carroça, temendo, pela primeira vez, pela minha vida. Percebi que o tal grimório, o mesmo com a flor de lírio, estava ao seu lado e me perguntei como e onde ela tinha achado aquilo, já que a última vez que o vi ele estava na mesa da minha cozinha. Balancei a cabeça na tentativa de tirar mais essa doideira da mente e me convenci que aquele era outro grimório com uma outra flor.

Minha coluna já estava gritando de tanta dor quando paramos. A impressão que dava era de que não tínhamos ido a lugar nenhum, tudo ao redor era igual, árvores, grama, terra batida, exceto pela gritaria que vinha de algum lugar ao fundo. Aproximei-me, chegando perto o suficiente para ver e ouvir melhor o que estava acontecendo.

— Mas o que é aquilo? Temos que ajudar, chamar a polícia, fazer alguma coisa. Aquilo é barbárie.

— É isso que faremos aqui. Você é a filha prometida do nosso coven, e, com a conjuntura da Lua de Sangue, teremos a oportunidade de ajudar o coven a combater o mal. Aquele mal!

— O quê?! Quer saber, já chega! Isso tá cada vez mais louco — disse virando de costas e indo em direção à multidão à frente.

Ouvi um murmúrio e uma sensação de leveza me percorreu. Senti uma brisa que fez gelar meus pés descalços e sujos. Olhei para eles e me vi flutuando e sendo afastada de onde eu iria.

— Você não conseguirá nada indo até lá. Apenas ser morta. O seu dever com suas irmãs, por enquanto, é aqui. Eu já tracei o círculo mágico, agora preciso que você fique dentro dele e posicione essas cinco velas vermelhas, que representam os cinco elementos. Pega o grimório, na página do lírio…

— Lírio? Como você…?

— Ah, menina, como você ainda não entendeu?! Sou e sempre serei sua tia Cibele. Eu te disse que nos veríamos em breve. Isso tudo faz parte do destino, por isso, agora, preciso que confie em mim.

Era como se o mundo tivesse parado naquele momento. Meu coração contrariava minha razão. A possibilidade de ter minha querida tia de volta fez lágrimas voltarem aos meus olhos. Eu queria abraçá-la, queria fazer milhões de perguntas.

— Vamos lá, criança, estamos com pouco tempo, o ápice está próximo. Veja o que está escrito na página, leia com atenção. Você saberá o que fazer.

— T-t-tá bem! Grimório, vamos ver… estrela de cinco pontas no círculo… aumento de força e magia… ai, eu Deus, isso só pode ser um sonho… espírito, água, ar, fogo, terra... se for, eu não quero acordar. Tia! Aqui! Esses são os tais elementos?

— Oh, Deusa, esqueci que você não sabe nada disso. Sim, são e cada vela é para um elemento. Você é o Espírito e é lá que você deve ficar, no círculo. Eu sou Água, outras três irmãs são o Fogo, o Ar e a Terra e vão ocupar os outros lugares. Elas devem estar quase chegando — disse a mulher apontando para as direções de onde eu deveria colocar as velas. — Ah, olá, irmãs, abençoada seja a Deusa por vocês terem chegado bem. Alguém as seguiu?

Olhei para as quatro mulheres loucas conversando e reparei que uma delas era a senhora em que esbarrei quando cheguei nesse mundo louco. Elas me olhavam estranhamente, como se me avaliassem, enquanto eu ouvia gritos ao longe. E eu ali, brincando de acender velas, quase prisioneira de uma mulher louca igual a minha tia.

— Minha menina, erga suas mãos para a Lua de Sangue, feche os olhos e sinta o poder da Deusa e da Lua correr em seu sangue e tente nos acompanhar.

“Que a força da Deusa e da Lua Sagrada de Sangue corra dentro de nossos corpos, assim como nossa própria força representada em nossos sangues.”

O grimório, que deixei no chão ao meu lado, se abriu sozinho e suas folhas foram passadas rapidamente, sem que ninguém as tocasse, e parou na folha do lírio. O grimório se ergueu diante dos meus assustados olhos enquanto as mulheres repetiam as palavras como um mantra.

Algo dentro de mim despertou uma vontade de também recitar aquelas palavras e li algumas vezes a frase no grimório em voz alta. Quando fechei meus olhos, senti toda a energia dentro daquele círculo. Um vento forte nos circundava. Nossas capas esvoaçavam, assim como todas as folhas caídas no chão. As árvores ao nosso redor se estremeciam e pareciam estar em sintonia com o que estava acontecendo.

Senti um choque em minhas mãos, porém em nenhum momento quis sair daquele lugar. O que eu estava experienciando era surpreendente demais para não aproveitar. Minhas mãos pareciam pegar fogo e todo esse calor foi descendo pelo meu corpo, que foi tomado por uma intensa energia, uma força descomunal.

“Que assim seja e assim se faça! Graças à Deusa!”

Abri meus olhos e, surpresa, vi que meus pés voltavam em direção ao chão. Ao redor, as mulheres ali presentes também faziam a mesma coisa, com a mesma leveza e delicadeza. Não sabia como, mas de alguma forma toda aquela energia havia feito com que levitássemos.

— Agora, irmãs, estamos prontas — disse Cibele.

A força e a energia que eu sentia depois de tudo aquilo era inigualável. Nunca havia experienciado nada igual. Olhava para as minhas mãos e faíscas de energia azuladas saíam delas. O calor ainda percorria todo meu corpo. Levantei a cabeça maravilhada.

Porém, parecia que apenas eu estava empolgada com o que aconteceu. As quatro mulheres apagaram suas velas e quebraram o círculo ao passarem seus pés na linha onde elas estavam. Cibele me mandou fazer o mesmo. Aquilo foi meio que uma desilusão e eu apenas a obedeci. Já não tinha mais nada o que perder. Em breve, eu acordaria desse sonho, tudo acabaria, e eu poderia viver o meu luto em paz.

— Menina, você precisa prestar muita atenção agora. Sei que te devo explicações, mas o tempo é curto, por isso, mais uma vez, peço que confie em mim.

— Cibele, você tem certeza? Já tivemos outras mais crentes que sucumbiram.

— Confiem em mim e na Deusa. A minha sobrinha é a pessoa certa.

— Calma aí! O que você quis dizer com sucumbiram?

— Nada, ignore ela. Preciso que você se concentre. Não importa o que aconteça, não deixe de recitar o que está escrito na página do lírio. O maldito começará o ritual no ápice da lua e devemos estar preparadas. Cubra a cabeça. Ninguém pode nos reconhecer.

Cibele caminhou comigo por um tempo e me disse para permanecer o mais discretamente possível. Assim que ela se afastou, pude ver melhor a barbárie que estavam fazendo.

Quatro mulheres estavam amarradas a um tronco de madeira, com uma pilha de palha aos seus pés. Elas estavam sujas e muito machucadas. Suas roupas rasgadas deixavam muitas partes de seus corpos à mostra, assim como seus profundos ferimentos.

A população em volta se regozijava com a cena. Muitos gritavam para que as mulheres fossem queimadas, outros riam e outros jogavam alimentos podres em suas direções. E me perguntei que diabos era aquele lugar e como isso ainda era permitido.

Quatro homens se aproximaram com tochas acesas enquanto outro se posicionou no meio das mulheres, chamando-as de bruxas, exortando a população para aquele ato extremamente cruel, que jamais pensei em presenciar. Meus olhos se arregalaram, pensei em intervir, mas o olhar de Cibele em minha direção me impediu. Em seguida, as mulheres se revelaram.

Começou com um sussurro, porém a intensidade e a força do que recitávamos aumentou.

Luce ut pluma, dura ut tabula. Luce ut pluma, dura ut tabula. Luce ut pluma, dura ut tabula… — recitei com elas.

Bruxas… bruxaria… heresia… matem… queimem…

A população gritava ensandecida ao ver que as mulheres levitavam com os pedaços de madeira que as prendiam.

Nunc vides, iam non facis. Nunc vides, iam non facis.

Recitávamos o mantra em uníssono. Eu, atenta às outras, estalei os dedos assim como elas. Num piscar de olhos, as mulheres que levitavam desapareceram.

Ouvi um grito gutural vindo do homem, que estimulava a população a odiar aquelas mulheres. Ele levantou sua mão e, com um simples gesto, quebrou o pescoço das mulheres que pouco tempo atrás fizeram o círculo comigo. Restava apenas Cibele e eu.  Constatando que a situação em que estávamos era crítica, Cibele gritou para que eu começasse a recitar o que estava escrito no grimório.

Em seguida, ela foi erguida por algum tipo de força. Firmei meus olhos e vi um leve fluxo de energia, que saía das mãos do homem, rodearem o pescoço da minha tia. Ela segurava seu pescoço como se alguém a enforcasse. Nervosa e com as mãos trêmulas, abri o grimório e me amaldiçoei por demorar a encontrar a página do lírio. Li aquelas palavras esquisitas que para mim não faziam sentido e eu duvidava que aquilo estivesse ajudando Cibele. O homem parecia ficar cada vez mais forte, assim como a lua ficava cada vez mais vermelha.

— Já chega! Solta ela! AGORA! — gritei, jogando o grimório na direção dele.

— Ora, ora, o que temos aqui?! Não se meta no que você não sabe — disse o homem, soltando Cibele enquanto fazia o grimório virar pó diante de meus olhos.

Uma força descomunal invadiu meu corpo e eu estava rodeada por um brilho avermelhado. Senti que eu tinha aumentado de tamanho, era como se um ser poderoso me possuísse. Será que esse era o poder da Deusa que minha tia tanto fala?

— Sou a filha prometida. A filha nascida na Lua de Sangue e banhada com o sangue sagrado da Deusa. Irmãs precisaram se sacrificar para esse momento e hoje elas serão compensadas.

Minha voz estava diferente, com muita potência. Ela ecoava pela pequena vila.

— Sua era de maldade e de distorção dos ensinamentos da Deusa e do Deus terreno acabou. Essas pobres almas que você matou hoje foram as últimas. Nunca mais você alimentará seu espírito e seu poder com elas. Suplique, peça clemência, talvez sua vida seja poupada.

— Não me rebaixarei a você. Essa profecia de filha prometida não existe e nunca existirá. Isso é tudo invenção dessas bruxas tolas, que tentam me destruir desde que o mundo é mundo, mas não são capazes. Peça clemência, insolente.

— Quanta insolência, mero feiticeiro. O que lhe foi dado, agora facilmente será tirado.

— O que você fez? MEUS PODERES! MINHAS FORÇAS! Como ousa?! Estou fraco, como isso é possível.

— Agora você pagará pelos seus pecados aqui na Terra com a mesma crueldade que você infligiu a tantas pessoas. E sua alma sofrerá eternamente.

***

Acordei com um grito e reconheci o meu quarto. Eu estava com a respiração acelerada e me senti aliviada por tudo aquilo ser apenas um sonho. Levantei da cama e um objeto quase caiu nos meus pés sujos de lama… O grimório…